Os 4 erros mais comuns da transformação digital nas empresas

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Desafios do CEO

autor

Márcio Nogueira

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B2C

Não podemos negar que a transformação digital nas empresas faz parte do processo evolutivo dos negócios. Aliás, a transformação digital é um processo inevitável para qualquer negócio que pretenda manter-se competitivo no mercado.

A transformação digital é um processo transversal a qualquer departamento dentro de uma empresa, deste modo, e se a sua implementação não for cautelosa, a margem de erro poderá ser pequena. Neste artigo vou partilhar aqueles que são os 4 erros mais comuns praticados aquando de um processo de transformação digital, assim como um exemplo real de uma empresa mundialmente conhecida no setor da distribuição e retalho alimentar.

Mas antes, façamos uma analogia entre o passado e o presente das empresas, e como a evolução tecnológica e digital veio influenciar os seus modelos de negócio.

 

Os perigos de um negócio estagnado

Como referi em cima, a transformação digital é um processo inevitável para qualquer negócio que pretenda manter-se competitivo no mercado. Prova disso é o facto de 88% das empresas listadas na Fortune 500 em 1955 terem, hoje, desaparecido. Ou porque abriram falência ou porque, ao não conseguirem acompanhar as mudanças no mercado, se uniram a outra empresa abdicando da sua identidade de marca e propósito. Aliás, podemos dizer que a maioria das empresas que compõe a lista do ano de 1955 é hoje totalmente desconhecida.

Recorrendo à lógica, e numa tentativa de prever o futuro dos negócios, será que ao longo dos próximos anos, as empresas que assumem o topo da lista da Fortune 500 serão substituídas por outras empresas ainda mais tecnológicas e digitais? Há 60 anos atrás, as empresas que ocupavam os primeiros lugares deste ranking eram empresas ligadas aos ramos petrolífero, das energias ou automóvel, hoje o panorama é outro e já começamos a ver empresas mais tecnológicas (google, amazon, apple, etc.) em posições mais elevadas.

A realidade é que estudos apontam para uma diferença de cerca de 60 anos entre aquilo que era o tempo de vida de uma empresa em meados do século XX (75 anos) e o tempo de vida das empresas de hoje em dia (15 anos)!

A grande questão aqui passa, na verdade, por perceber qual é o combustível que faz andar este motor económico e empresarial. Em que área é que a tecnologia pode ser uma mais-valia? Estará o mercado cada vez mais orientado para as expectativas e necessidades do consumidor? Estará a competitividade entre empresas a aumentar exponencialmente?

A transformação digital nas empresas é um enorme desafio, principalmente para empresas já estabelecidas e que não nasceram digitais. O Lidl, uma das empresas líder do seu setor, pode comprová-lo.

 

O caso do Lidl

O Lidl é um caso polémico de um projeto ambicioso de transformação digital que não foi bem sucedido. O objetivo seria a implementação de novos processos internos baseados na integração de um software de gestão de processos (ERP) para, entre outros, otimizar a recolha e análise dos dados de modo a poder alicerçar as suas decisões em algo concreto e não em instinto.

Inicialmente, todas as condições para o êxito estavam reunidas: capacidade de investimento, uma parceria com a empresa tecnológica alemã SAP SE, uma necessidade identificada e uma vontade de estar à frente da competição e liderar o setor.

No entanto, após um investimento de € 500M, sete anos, cerca de mil trabalhadores e centenas de consultores envolvidos e a trabalhar ativamente para a implementação deste sistema, o Lidl cancelou o projeto.

 

O que correu mal neste projeto?

 

Primeiro, a duração do projeto. Um processo de implementação de um software de gestão não pode durar sete anos. Para além disso, é crucial para uma empresa ter flexibilidade para se adaptar à constante evolução do meio e não o oposto. Afinal, e não é novidade nenhuma, a tecnologia está em constante evolução. O que é verdade hoje, daqui a sete anos não.

Segundo, a falta de um objetivo. O Lidl teve uma postura rígida face à implementação do software, investindo na personalização do sistema de modo a acomodar os seus processos já existentes. Isto é, a ambição de ter um software totalmente customizado aos processos já existentes, levou ao aumento dos entraves que, por sua vez, atrasou todo o processo.

A imprevisibilidade de todas as customizações solicitadas só demonstrava uma clara falta de objetivo, falta de orientação e inexistência de uma estratégia. Deste modo, e após inúmeras customizações, sete anos e um enorme investimento, o Lidl interrompeu por completo o projeto e decidiu voltar ao seu processo antigo.

 

Transformação digital nas empresas: os 4 erros mais comuns

 

Fruto da minha experiência profissional e interesse que tenho pelo tema, identifiquei os 4 erros mais comuns cometidos pelas empresas quando iniciam o seu processo de transformação digital, independentemente da área ou setor de atividade.

1. Não ter uma estratégia

Ter uma estratégia bem definida é crucial para garantir o sucesso da transformação digital da sua empresa. No entanto, não existe nenhuma fórmula mágica, a estratégia de transformação digital deve ser feita mediante as características específicas do seu negócio. E enquanto poderão diferir de negócio para negócio, o objetivo final é sempre o mesmo – acrescentar novo valor para os seus clientes e para a sua empresa.

2. Pensar a longo prazo

Quando embarcamos na viagem da transformação digital, temos sempre de ter em consideração a evolução constante da tecnologia e do mercado, e tentar prever tendências.

No entanto, quando pensamos no futuro, o horizonte temporal estabelecido é de vários anos, o que hoje em dia já não faz sentido. O que pensamos que irá acontecer numa década, agora é provável que aconteça nuns meros dois anos. Entender a volatilidade e perceber quais serão as tendências futuras da tecnologia é imperativo se se quer criar novas fontes de valor para os negócios, aumentando a competitividade e valor no mercado.

3. Querer grandes vitórias em pouco tempo

Desengane-se se pensa que o “go big, or go home” é a filosofia a adotar para a transformação digital do seu negócio. Ao concentrar-se em pequenas vitórias, utilizar os seus recursos existentes, e com um pouco de investimento, tem tudo que necessita para a sua transformação digital.

Aposte em projetos com dimensões mais pequenas e com milestones mais frequentes que inspirem confiança e sentido de realização. Olhe para tecnologias como a automação e machine learning como possíveis aliados na transformação digital da sua empresa. Estas ferramentas não só permitem uma otimização dos seus processos, como potenciam a inovação e a criação de novas capacidades, criando valor para a sua empresa e para os seus clientes.

Rapidez e agilidade são as palavras-chave para uma transformação bem sucedida, aliadas sempre a métricas, disciplina e criatividade. Como tal, é essencial ser ágil, evitar a rigidez e a aversão à mudança.

4. Estabelecer um prazo limite

A transformação digital é, neste momento, não só uma preocupação, mas uma necessidade para as empresas. No entanto, por vezes as iniciativas de transformação digital poderão fazer-nos sentir que estamos a correr atrás de um deadline estabelecido arbitrariamente. Isto faz com que se aplique uma pressão extra, podendo afetar outras prioridades do seu negócio. Não existe uma meta.

A transformação digital é um processo contínuo, uma forma de ser e estar, uma mudança constante.

 

A importância dos líderes digitais

Não assumir a responsabilidade de líder digital. Sim, poderia incluir este como sendo um dos erros mais comuns no processo de transformação digital nas empresas, contudo, achei por bem diferenciá-lo destacando a sua importância.

Os líderes de negócio são os principais impulsionadores da transformação digital nos seus negócios e os principais responsáveis pela motivação de equipas. Assumir a responsabilidade de líder digital é isto mesmo: estar disponível e ser visionário, construindo a capacidade para responder aos desafios que ainda estão por vir. E lembre-se: a realidade de hoje, nomeadamente as suas necessidades e objetivos de negócio, pode não ser a realidade de amanhã.