A inovação é só para empresas ricas?

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Desafios do CEO

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Nuno Morais

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B2B, B2C

Enquanto gestor de uma empresa rica em parcerias estratégias, ouço com mais frequência do que desejaria que “a inovação é para quem tem dinheiro”. De facto, é nas empresas maiores que encontro departamentos inteiramente dedicados à inovação, e são elas que dão o nome (e não só) a eventos e iniciativas de promoção da inovação tecnológica: tanto que, no estudo sobre Transformação Digital que a Impacting Digital realizou em 2018, notámos que as empresas com faturação anual acima dos 500M€ eram as que estavam digitalmente mais desenvolvidas. 

 

Tenho, no entanto, de contra-argumentar que o cenário da inovação não é tão linear assim. A inovação custa, sim, uma boa dose de recursos, mas não tem de ser uma dose insuportável e pode ser adaptada à dimensão de cada negócio. Na realidade, a inovação pode até representar um corte de despesas a longo prazo, mais do que um investimento a fundo perdido em experiências muitas vezes falhadas.

 

A inovação tem vários preços

 

Este é sempre o meu ponto de partida. A inovação é um processo complexo, com muitas etapas e caminhos possíveis. Nem todos custam o mesmo, nem todas as empresas têm custos iguais seguindo pelo mesmo caminho.

 

Costumo, em reunião com pares, ilustrar o que digo dividindo as etapas da inovação em diferentes categorias de preço: as que são gratuitas, as que são baratas e as que exigem um investimento de peso.

 

Inovações gratuitas

 

Há etapas do processo de inovação que, acredite se quiser, são totalmente gratuitas. Uma delas é a construção de uma cultura de inovação. Não precisa de gastar dinheiro para fazer a sua equipa pensar de forma inovadora – basta que invista numa redefinição de posturas e abordagens, de uma forma consistente e por um período de tempo considerável. Consegue fazê-lo começando por si: comunique uma visão mais inovadora do negócio, faça ver aos colaboradores que quer colocar a empresa na vanguarda da inovação. A cultura empresarial é contagiante por natureza e, a médio prazo, vai notar resultados positivos.

 

Também não custa nada pedir ideias. Pode pedi-las aos colaboradores, aos clientes, aos fornecedores. No fundo, qualquer pessoa que esteja de alguma forma ligada ao seu negócio vai saber dar-lhe sugestões. Pode não aplicá-las todas, mas é quase certo que algumas vão deixá-lo surpreendido por não ter pensado nelas antes.

 

Definir um caminho a percorrer coletivamente é igualmente gratuito. Muitas vezes os colaboradores só não participam mais com a sugestão de ideias porque não sabem se as empresas estão abertas a elas ou sequer se estão interessadas. Esclareça com a sua equipa que tem, sim, interesse em ouvir novas perspetivas e, correndo bem, a pô-las em prática – é da motivação que nascem as grandes mudanças.

 

Inovações de baixo custo

 

Da mesma forma que há etapas do processo de inovação que não requerem qualquer investimento, há outras em que o custo de execução é demasiado baixo para ignorar.

 

As reuniões de brainstorm, por exemplo, juntam os colaboradores numa sessão de partilha e desenvolvimento de ideias que pode ser altamente rentável para o negócio – tudo sem desviar um cêntimo do seu orçamento e investindo apenas algumas horas de trabalho da equipa.

 

Se não tiver facilidade em juntar as equipas periodicamente, pondere a criação de um espaço na intranet ,ou até mesmo na cloud, onde as mesmas ideias possam ser apresentadas e debatidas entre colegas. O custo de implementação já pode ser algum (para criar a plataforma), mas não é difícil de fazer compensar com as ideias de inovação que daí resultarem.

 

Debatidas as ideias, continua a poder avaliar e escolher as melhores sem gastar dinheiro. A despesa só surge quando as sugestões mais promissoras entrarem na fase de prototipagem – mas, por esta altura, o envolvimento e motivação conseguidos junto dos colaboradores que sugeriram aquela inovação já pagou qualquer tempo dedicado à construção de protótipos – além de, na maior parte das vezes, a prototipagem ter custos reduzidos.

 

Com os protótipos acabados, pode validá-los junto dos clientes. A iniciativa pode ser acolhida (e apresentada) como estando ao abrigo da relação de parceria entre as instituições, por isso dificilmente lhe será pedido que pague pelo feedback.

 

Por fim, e independentemente dos resultados obtidos com cada inovação, é importante que reconheça o valor de envolver colaboradores e parceiros em projetos internos de inovação, construindo relações de fidelidade e de confiança. Faça da sua inovação a inovação de todos, e verá que novas oportunidades vão ser geradas por aquela que acabou de aproveitar. Novos parceiros vão surgir e, em consequência, novas inovações para o seu negócio.

 

Inovações exigentes em investimento

 

O investimento “a sério” começa quando novos produtos ou serviços têm de ser desenvolvidos para implementação. Nós, gestores, sabemos que construir um protótipo não é o mesmo que preparar um produto para o cliente final – seja ele interno ou externo. Equipas inteiras vão ter de ser dedicadas ao processo, com a alocação de grandes orçamentos e muitas horas de trabalho.

 

O cenário agrava-se quando em causa está uma transformação do negócio da empresa, que obriga ao reajuste de todos os parâmetros administrativos e operacionais. O investimento é grande, embora a ousadia possa ser rentável.

 

Por fim, a inovação pode exigir que repense a estrutura do seu negócio (incluindo a estrutura tecnológica). Este processo, se levado a cabo com seriedade, pode facilmente transformar-se numa das maiores rubricas do seu relatório de contas.

 

Inovar está cada vez mais caro

 

Com cada vez mais empresas no mercado a investir em força na inovação, é difícil perceber porque é que cada vez menos se inventam coisas totalmente originais.

 

Na realidade, um estudo do Instituto de Stanford para a investigação de políticas económicas revelou que as organizações de hoje investem 20 vezes mais em I&D do que as empresas em 1930, mas que não estão a beneficiar de um aumento proporcional na qualidade dos resultados dessa investigação. Porquê? Porque é cada vez mais difícil encontrar o que ainda não existe – e porque a onda de investimento das empresas de grande dimensão está a fazer subir o preço da inovação e a torná-lo menos acessível para o mercado mais pequeno.

 

A solução, ainda assim, está ao seu alcance: só tem de substituir a pergunta “quanto posso investir” pela pergunta “como posso investir”.

 

Como investir em (boa) inovação

 

Até as empresas de grande dimensão zelam pelo bom uso dos seus recursos, e a inovação é um verdadeiro sorvedouro de recursos se assim permitir. Na realidade, financiar um processo de inovação é quase como fazer uma aposta com o dinheiro da sua empresa: pode estar a comprar um processo de ideação cheio de bons frutos, ou pode deparar-se, dali a uns meses, com uma série de experimentações falhadas e nenhuma ideia pronta a implementar.

 

É neste cenário que surge a inovação aberta ou em parceria – aquela que ultrapassa as paredes da empresa e vai buscar recursos a outras organizações.

 

Pense que não é só a sua empresa que olha para a inovação como financeiramente inatingível. Pelo país fora, há milhares de pequenos negócios que não têm como sustentar a inovação, embora sintam que precisam dela para se manter no jogo comercial. A solução é unirem energias, contribuindo para o desenvolvimento comum.

 

A sinergia no campo da inovação passa pelo acordo com empresas de desenvolvimento com o objetivo de entrarem no processo de ideação. Imagine que precisa de um sistema tecnológico novo e muito específico: quando tiver a ideia e o conceito bem definidos, passa a missão de concretização a um parceiro e, em troca, deixa que ele use a sua ideia para ir mais longe e derivar noutros projetos. Um modelo semelhante pode ser criado com parceiros e fornecedores: podem criar soluções conjuntas que servem, simultaneamente, as necessidades dos dois negócios.

 

A ideia da agregação de recursos é que as empresas pequenas acabem a inovar em cima da inovação das outras e evitem ter de inventar tudo do zero, uma de cada vez, em cada processo de inovação. Se o fizerem, cada uma investe menos, há menos desperdício e maior controlo sobre os limites do investimento individual (sem que isso ponha em causa o progresso do processo de inovação).

 

Quando o assunto é inovação nos negócios, empresa nenhuma pode dar-se ao luxo de deixar que a concorrência lhe passe à frente. Antes de começar a debitar recursos, olhe à sua volta e angarie aliados de inovação: eles vão acelerar o seu processo, contribuir com melhorias e ainda oferecer-lhe uma grande poupança a longo prazo. A inovação não é só para empresas ricas – é para aqueles que sabem fazer boas parcerias.